Acordei com essa palavra na cabeça e o gosto de saudade na boca. era um sabor salgado das lágrimas que desciam pelo rosto e desaguavam no coração apertado.
me fiz pensar, então, em todas as vezes que disse tchau. as de maneira súbita, planejadas ou mesmo sem saber que estava me despedindo. pensei em como isso me afetava e em como, na maioria das vezes, era eu a ir. e, de tanto ir, não tinha tempo pra pensar em como era ficar. de tanto ir, meus medos e ansiedades eram outros. o desconhecido me esperava e era ao mesmo tempo excitante e aterrorizante. eu tinha a certeza do "para sempre" e o medo do "nunca mais", lado a lado, cruelmente, de mãos dadas.
ontem você foi e eu fiquei. e foi estranho. já havia ficado antes, mas sempre existe uma porção de surpresa quando percebo a falta de controle sobre meus sentimentos e como os sinto. ficar gera uma sensação de estabilidade, mas o simples ato de ir ricocheteia em todos ao redor e nem sempre quem fica permanece o mesmo. as dinâmicas acabam mudando, dando espaço a outras novas. no começo a gente fica um pouco confuso, o olhar bate naquele espaço vazio antes ocupado por um corpo familiar e o coração, com bom músculo que é, se contrai. e dói.
no entanto, devir é necessário. estamos todos em processos particulares e únicos, ninguém sabe lidar com tudo, não nos ensinam tudo, e no fim das contas todos estamos improvisando. o ápice de uma transformação é esclarecedor pra si e completamente incerto para o futuro. saber que estamos indo em direção a algo que almejamos é um processo diário de certezas mutáveis — afinal, não seria a vida um processo mutável?
o devir é necessário. é tempo de devir. eu olho muito para trás, não a fim de reviver todas as dores de um passado recente, mas com o simples objetivo de repensar todo meu caminho trilhado e como todas as minhas escolhas me trouxeram até aqui.
daí eu paro. bem aqui. nesse banco gelado de cimento, com as pernas balançando num ritmo insistente que te irritava e ouvindo canções aleatórias eu paro. paro e penso que essas transformações constantes doem um pouco porque elas tiram um pedaço da gente, aquela pele morta que não tem mais lugar no nosso corpo. dói um pouco no começo, mas o processo de cicatrização é lindo de se ver. são umas cicatrizes invisíveis materializadas em datas e passagens de avião e áudios de conversas e cartas e mensagens e fotos e momentos. e também naqueles presentes (dados ou recebidos) que carregam consigo um pedaço da outra pessoa.
você foi tão difícil e eu fui tão egoísta, mas é tempo de devir, o devir às vezes é necessário.
26/12/2017
11/12/2017
Vai! Vai! Não vai?!
vai, se você precisa ir.
vou ficar, com um bom livro e um jazz.
cuidado na estrada
e quando voltar
tranque a porta
apague a luz
e saiba que eu te amo
vou ficar, com um bom livro e um jazz.
cuidado na estrada
e quando voltar
tranque a porta
apague a luz
e saiba que eu te amo
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