18/07/2010

O Gari e a Bailarina (Micro-Romance em Três Atos)

ATO I
A Bailarina
- Sobre como a noite pode ser longa e dolorosa.

Postou-se frente ao espelho, abriu a bolsa e retocou sua maquiagem tão rapidamente que nem mesmo suas amigas perceberam quando ela abriu as portas do banheiro e atirou-se para a pista de dança. Dançava freneticamente e tamanha era sua felicidade que sorria para todos os rapazes a sua volta ostentando sempre em sua mão uma dose de sabe-se-la-o-que. Seus olhos grandes e ávidos não escondiam seu coração deverás ansioso e que há tempos procurava companhia para suas tardes tão vazias. Ela queria mais do que a rotina dos seus dias lhe proporcionava, queria uma nova aventura, um novo amor.
Quando avistou um jovem sorridente próximo à fila do bar pensou ser aquele o homem que salvaria os seus dias. Assim sendo, encarou-o fixamente, abaixou a cabeça, mexeu o gelo com os dedos, deixou o cabelo deitar-se sobre os ombros, espiou novamente, sorriu e em seguida cai em prantos. O jovem provavelmente notará todas as suas insinuações, porem apenas limitou-se a pagar sua conta e seguir o seu destino. Foi e deixou-a assim, perdida em seu ritual autopunitivo. Cansada e sentindo o chão se abrir sob seus pés, ela decretou ali o fim da sua noite, tirou os sapatos, pediu outra dose de sabe-se-la-o-que e ganhou a rua sem destino...

ATO II
O Gari
- Sobre como a vida nos prega peças a cada esquina.

Era um sobrado velho e chamava a atenção de quem passasse à sua frente devido a sua cor nada convencional para uma metrópole, um verde-limão reluzente e que parecia brilhar mesmo quando a noite vinha. Ali, o silêncio da noite foi quebrado apenas quando o rádio relógio próximo à cabeceira da cama despertou exatamente as 04 AM.
Ele rolou de lado a lado de sua cama por várias vezes, custava a acreditar que enfim a hora de levantar-se chegará. Saiu da cama e espiou pela janela do quarto, percebeu que a festa que acontecia perto dali ainda estava abarrotada e não demonstrava nenhum sinal de que seria breve o seu fim, pensou consigo mesmo antes acender as luzes: “irresponsáveis, divirtam-se, pois eu vou para o trabalho”.
Seguiu o mesmo ritual de todos os dias nos últimos cinco anos, cama, banheiro, cozinha, jornal e o adeus para seu único amigo, o gato que nessa altura já roçava irritantemente seus pés a procura de carinho. Trancou a porta e seguiu para sua sina, não que odiasse o trabalho, estava apenas cansado. Ele queria mais do que a rotina dos seus dias lhe proporcionava, queria uma nova aventura, um novo amor.

ATO III
O Destino
- Sobre a poesia, o amor e dois corações apaixonados.

Girou, pulou da rua para a calçada, equilibrou-se na sarjeta, atirou as vassouras para o alto, fechou os olhos, sentiu o vento fresco da noite, girou, sorriu para si mesmo e parou atordoado quando cruzou seu caminho a mulher mais linda que já havia conhecido em toda a sua vida. Não que ele fosse assim tão velho e nem que tenha conhecido milhões de mulheres, mas essa era mesmo a mais bela entre todas.
Quem o visse ali, imóvel e fitando a nobre dama cairia em infindas gargalhadas devido a sua face abobalhada perante aquela situação. Mas ela não, ao avistá-lo, apenas sorriu com o coração e deixou uma breve lágrima rolar de seus olhos, ela enfim perceberá que sua alma se aquietará e uma outra lágrima então rolou.
Ele caminhou em sua direção e ela sentiu aquele frio na barriga que cessou apenas quando ele, tomando-a pelos braços, lhe beijou como em um road-movie qualquer. Foi assim que pela primeira vez em sua vida ela pode tocar o céu e viajar por entre os sonhos, foi nesta noite também que ela descobriu que a lua é coberta de cristais caramelados que se transformam em palavras nas mãos dos poetas. Juntos pelo resto da noite os dois dançaram a valsa do destino sob reluzentes estrelas e era tanto o amor ali presente que até mesmo o sol resolveu sair de sua morada mais cedo e assim assistir tão bela cena.

Daquele dia em diante toda a vez que o radio relógio desperta na madrugada, eles se beijam e entrelaçam os pés sob o cobertor. Ele, feliz como um rei. Ela, sem sentir aquele vazio no peito, agora ela sente apenas...

...uma cosquinha gostosa na sola dos pés.

FIM.