"Entregue a si mesma, a marquesa pôde, pois, permanecer perfeitamente silenciosa em meio ao silêncio que estabelecera em volta de si, e não teve ocasião para sair do quarto forrado de tapeçarias onde falecera sua avó, e onde se recolhera para morrer suavemente, sem testemunhas, sem importunações, sem sofrer as falsas demonstrações dos egoísmos mascarados de afeição que, nas cidades, causam aos moribundos uma dupla agonia. Essa mulher tinha vinte e seis anos. Nessa idade, uma alma ainda cheia de ilusões poéticas encontra prazer em saborear a morte, quando ela se afigura benfazeja. Mas a morte é uma sedutora falaz das pessoas jovens; aproxima-se e recua, mostra-se e esconde-se; a demora desilude-as dela, a incerteza que lhes causa o amanhã termina por lançá-las de novo no mundo, onde tornarão a encontrar a dor que, mais impiedosa que a morte, há de feri-las sem fazer esperar. Ora, essa mulher que se recusava a viver ia sentir a amargura dessa demora no fundo de sua solidão, e nesta fazer, numa agonia moral que a morte não terminaria, uma terrível aprendizagem de egoísmo que devia corromper-lhe o coração e amoldá-lo à sociedade.
"BALZAC, Honoré de, 1799-1850. A Mulher de Trinta Anos (La Femme de Trente Ans), França, 1834.
"O conhecimento de diferentes literaturas é a melhor maneira de libertar um indivíduo da tirania de qualquer uma delas." - José Martí
19/08/2010
18/08/2010
Palavras, Silêncio.
Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, outro monstro entre os nossos líricos.
Palavras, palavras,palavras...
Silêncio, Silêncio, silêncio...
Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito.
Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.
Palavras, palavras,palavras...
Silêncio, Silêncio, silêncio...
Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito.
Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.
13/08/2010
Enigma de um Segundo.
É um segundo da mais absoluta beleza. Lá vinha a pequena. Minhas retinas fatigadas fecham em close. Que maravilha. Aquele sorriso, como digo, indecifrável. Porque não se trata de um sorriso besta de alguma felicidadezinha passageira, de um ganho financeiro, da sorte no amor ou no jogo.
É mais enigmático. Muito mais do que o sorriso da Monalisa, que reza a lenda, era o sorriso de uma grávida. Não é o sorriso dos paraísos artificiais dos remédios tarjas pretas ou de alguma pastilha psicodélica. Nada.
Não é apenas o sorriso de quem recebeu uma notícia alvissareira, passou no concurso ou viu o regime fazer o efeito pretendido, uns quilos a menos, nova silhueta, que beleza! Nem chega perto.
Também não é o sorriso de quem ouviu uma cantada de amor com requintes de vida eterna.
O sorriso da pequena é um mistério.
Não é o riso de quem ouviu uma piada, um “gostosa”, “tesouro” etc etc. É bem mais profundo.
De que ri a menina mulher?
Será que ela ri de alguma coisa que despencou-lhe, naquele exato instante,do trapézio da memória? Alguma coisa muito engraçada dos tempos em que ela era uma menina apenas, uma pirraia, quem sabe uma queda de uma árvore ao subir pela primeira vez no pé de jambo da frente da casa suburbana?
Não é o sorriso de quem recebeu carta do estrangeiro, carta do amor que um dia escafedeu-se, saiu para comprar o king size do desamor e do desprezo.
Às vezes parece um pouco com um certo sorriso de maldade. Uma pontinha de vingança, quem sabe. Mas que nada. Só parece. Nada disso.À medida, mesmo naquele rápido segundo, que os lábios voltam ao normal, desfazendo o sorriso, vê-se que não tem nada de maldoso naquele retrato. Muito menos é tingido pelo gloss sabor uva da ironia ou o batom vermelho das vinganças. Não, não é nada irônico, nada ressentido.
Quanto mistério num sorriso de tão pouco tempo. Daria uns cinco anos de vida em troca do esclarecimento desse enigma de um segundo.Chego até a refletir, cofiando a barba rala e dando pequenos nós na costeleta: será que é consciente, será que elas sabem que o misterioso sorriso toma conta do rosto naquela hora?
Não, também não é só sexo. Por mais que o gozo, a pequena morte, como dizem os franceses, faça bem à pele e seja motivo do carnaval particular no peito,não é esse ainda o motivo isolado daquele sorriso, um sorriso mais invocado do que o sorriso do gato de Alice.
Eu gastaria esse espaço inteiro em especulações ainda sem rumo. Coisa de agoniar o juízo. Melhor mesmo apreciar, mesmo que agora de longe, esse lindo mistério da minha pequenã.
É mais enigmático. Muito mais do que o sorriso da Monalisa, que reza a lenda, era o sorriso de uma grávida. Não é o sorriso dos paraísos artificiais dos remédios tarjas pretas ou de alguma pastilha psicodélica. Nada.
Não é apenas o sorriso de quem recebeu uma notícia alvissareira, passou no concurso ou viu o regime fazer o efeito pretendido, uns quilos a menos, nova silhueta, que beleza! Nem chega perto.
Também não é o sorriso de quem ouviu uma cantada de amor com requintes de vida eterna.
O sorriso da pequena é um mistério.
Não é o riso de quem ouviu uma piada, um “gostosa”, “tesouro” etc etc. É bem mais profundo.
De que ri a menina mulher?
Será que ela ri de alguma coisa que despencou-lhe, naquele exato instante,do trapézio da memória? Alguma coisa muito engraçada dos tempos em que ela era uma menina apenas, uma pirraia, quem sabe uma queda de uma árvore ao subir pela primeira vez no pé de jambo da frente da casa suburbana?
Não é o sorriso de quem recebeu carta do estrangeiro, carta do amor que um dia escafedeu-se, saiu para comprar o king size do desamor e do desprezo.
Às vezes parece um pouco com um certo sorriso de maldade. Uma pontinha de vingança, quem sabe. Mas que nada. Só parece. Nada disso.À medida, mesmo naquele rápido segundo, que os lábios voltam ao normal, desfazendo o sorriso, vê-se que não tem nada de maldoso naquele retrato. Muito menos é tingido pelo gloss sabor uva da ironia ou o batom vermelho das vinganças. Não, não é nada irônico, nada ressentido.
Quanto mistério num sorriso de tão pouco tempo. Daria uns cinco anos de vida em troca do esclarecimento desse enigma de um segundo.Chego até a refletir, cofiando a barba rala e dando pequenos nós na costeleta: será que é consciente, será que elas sabem que o misterioso sorriso toma conta do rosto naquela hora?
Não, também não é só sexo. Por mais que o gozo, a pequena morte, como dizem os franceses, faça bem à pele e seja motivo do carnaval particular no peito,não é esse ainda o motivo isolado daquele sorriso, um sorriso mais invocado do que o sorriso do gato de Alice.
Eu gastaria esse espaço inteiro em especulações ainda sem rumo. Coisa de agoniar o juízo. Melhor mesmo apreciar, mesmo que agora de longe, esse lindo mistério da minha pequenã.
12/08/2010
RÉQUIEM PARA UM AMOR DE MUITO OU SAMBA DO EPITÁFIO.
Nem fomos ao mar para ver o nosso amor morrer na praia. Nosso amor morreu engarrafado, na correria do povo para deixar a Faculdade, babilônicos corações de fumaça a 10 km por hora. Nosso amor largou o automóvel e saiu caminhando, melancólico, entre motoboys e miragens, crepúsculo cubatanesco a escorrer do nariz.
Stop, parou o nosso amor ou é apenas um sinal fechado?
Minutos antes, nosso amor foi visto saindo do Bar e saltando no Banco, a linha tênue do último metrô de todos os amores expressos. Aí nosso amor, puto da vida, bebeu cachaça, cheirou cola, acendeu o cachimbo na Cracolândia, perdeu os óculos, as lentes de contato, pegou um papelote de quinta na boca, gastou a pele, fez besteiras e vomitou bem muito o foie-gras dos nossos próprios fígados. Nosso amor não conseguiu dormir direito nesse dia, zumbizou geral o malaco, e não foi apenas o barulho da construção mais demorada do que a catedral de Colônia, a Transamazônica ou o castelo de Kafka.
Nosso amor só pode estar tirando onda da nossa cara, é o tipo do amor que sabe rir da nossa desgraça, um amor de rapariga da última luz vermelha do fim do mundo, um amor da porra, que não respeita as leis do cosmo, nosso amor é uma ficção barata, café puro, pão na chapa, nosso amor nem esfriou ainda o cadáver, acabou no auge, como a carreira de Pelé, como os Beatles, nosso amor era sábio.
E como os amores reencarnam, muito cuidado, senhoras e senhores, nosso amor pode estar rondando ai a sua área. Prendam o infeliz criminoso, onde está a polícia que não vê uma coisa dessas? Nosso amor, para ser mais exato, acabou hoje, em plena quinta-feira: sentimento que costuma alimentar os inícios dos fins de semama, jamais os finais. Vai entender esse troço, nossos dialéticos corazones batiam o bumbo das contradições.
O fato, amiga, é que nosso amor era mais bacana do que nós dois juntos!!
Stop, parou o nosso amor ou é apenas um sinal fechado?
Minutos antes, nosso amor foi visto saindo do Bar e saltando no Banco, a linha tênue do último metrô de todos os amores expressos. Aí nosso amor, puto da vida, bebeu cachaça, cheirou cola, acendeu o cachimbo na Cracolândia, perdeu os óculos, as lentes de contato, pegou um papelote de quinta na boca, gastou a pele, fez besteiras e vomitou bem muito o foie-gras dos nossos próprios fígados. Nosso amor não conseguiu dormir direito nesse dia, zumbizou geral o malaco, e não foi apenas o barulho da construção mais demorada do que a catedral de Colônia, a Transamazônica ou o castelo de Kafka.
Nosso amor só pode estar tirando onda da nossa cara, é o tipo do amor que sabe rir da nossa desgraça, um amor de rapariga da última luz vermelha do fim do mundo, um amor da porra, que não respeita as leis do cosmo, nosso amor é uma ficção barata, café puro, pão na chapa, nosso amor nem esfriou ainda o cadáver, acabou no auge, como a carreira de Pelé, como os Beatles, nosso amor era sábio.
E como os amores reencarnam, muito cuidado, senhoras e senhores, nosso amor pode estar rondando ai a sua área. Prendam o infeliz criminoso, onde está a polícia que não vê uma coisa dessas? Nosso amor, para ser mais exato, acabou hoje, em plena quinta-feira: sentimento que costuma alimentar os inícios dos fins de semama, jamais os finais. Vai entender esse troço, nossos dialéticos corazones batiam o bumbo das contradições.
O fato, amiga, é que nosso amor era mais bacana do que nós dois juntos!!
Oração à Nossa Senhora dos que Amam Sozinhos.
Nossa Sra. dos que Amam Sozinho, perdoa-me pela insistência, nem mais é por tanto quere-la, é por deixar claro, nega que sopra das intimidades dessa oração, que só ela me faz passar da conta, perversa, cair no abismo mais lindo do gozo sem volta, como naquele encosto de beira de estrada, como na rodovia estrangeira de Sam Shepard, crônicas de motel, simbora!
Nossa Sra. dos que só pensam nela, cotovelos lanhados de tanta espera, tantos sustos nas ruas, nos bares, “é ela!!!”, Nossa Sra. Dos Cotovelos da Surpresa e das janelas, tão gastos, cinzas, peles, dobras, e tanta fome de viver aqui dentro, megalomaníaco, épico, terá sido a força do desprezo???
Não creio, sr. Albero Moravia.
É mesmo a paudurescência, nostalgia precoce das grandes histórias, o tempo inteiro, pensando, pensando, pensando, mas no fundo gostas!
Os joelhos lanhados pela romaria, devoção e insistência.
Nossa Sra. da Vida Alongada que consegue, nos seus exercícios de Kama Sutra, me levar à coisa mais sagrada.
Nossa Senhora!!!
Amor demorado, anjo exterminador da alcova sem pílulas milagrosas.
Amor por tê-la, rara.
Beijá-la delicadamente, como um cristão que dissolve na boca uma hóstia.
Amar por horas, riachinhos d´águas que não se sabem donde, cada cantinho dum mapa que se inventou só pra se perder depois, sentimento é a verdadeira bússola dum homem, perdido docemente lá embaixo, lá embaixo, daquelas tuas vestes modernas que nunca te escondem.
Lua cheia, vida crescente.
Escuto Lê Déserteus, Boris Vian, ouviste?.
Nossa Senhora dos que sentem muito e amam sozinho, rogai por nós que recorremos a vós!
- Xico Sá
Nossa Sra. dos que só pensam nela, cotovelos lanhados de tanta espera, tantos sustos nas ruas, nos bares, “é ela!!!”, Nossa Sra. Dos Cotovelos da Surpresa e das janelas, tão gastos, cinzas, peles, dobras, e tanta fome de viver aqui dentro, megalomaníaco, épico, terá sido a força do desprezo???
Não creio, sr. Albero Moravia.
É mesmo a paudurescência, nostalgia precoce das grandes histórias, o tempo inteiro, pensando, pensando, pensando, mas no fundo gostas!
Os joelhos lanhados pela romaria, devoção e insistência.
Nossa Sra. da Vida Alongada que consegue, nos seus exercícios de Kama Sutra, me levar à coisa mais sagrada.
Nossa Senhora!!!
Amor demorado, anjo exterminador da alcova sem pílulas milagrosas.
Amor por tê-la, rara.
Beijá-la delicadamente, como um cristão que dissolve na boca uma hóstia.
Amar por horas, riachinhos d´águas que não se sabem donde, cada cantinho dum mapa que se inventou só pra se perder depois, sentimento é a verdadeira bússola dum homem, perdido docemente lá embaixo, lá embaixo, daquelas tuas vestes modernas que nunca te escondem.
Lua cheia, vida crescente.
Escuto Lê Déserteus, Boris Vian, ouviste?.
Nossa Senhora dos que sentem muito e amam sozinho, rogai por nós que recorremos a vós!
- Xico Sá
11/08/2010
10/08/2010
Ensaio sobre a Segunda.
Na milésima-segunda noite ela foi embora. Pegou sua bolsa, uma blusa de lã e saiu para não mais voltar.
Sentado sozinho, ele procurava entender aonde errara. Minuciosamente, como nos últimos quase três meses, havia planejado tudo. Criara nomes, toda uma cronologia, descrevera o cenário fotograficamente. Tudo nos conformes. Mas, então, porque ela havia ido? Já havia contado histórias sem pé nem cabeça. Ela reclamava, fazia cena, e entre as diferenças e as inquietudes, as coisas se arrumavam.
Certa vez, quase fora traído pelo excesso de álcool. Misturou nomes, confundiu lugares e pronto: confusão. Mas ele era como um gato, se esquivava. E, ainda que caísse, sempre terminava de pé.Quanto mais acuado, mais agressivo ficava. Era mestre em sair de sinucas.
Em momentos onde qualquer um entregaria o jogo, ele apostava tudo e tirava uma carta da manga:
- "Termino amando-a".
Dizia num blefe invejável que era facilmente acompanhado de lágrimas nos olhos.
Vencia sempre.
Mas na milésima-segunda noite ela cansou. Não disse nada. Pegou sua bolsa, uma blusa de lã e saiu para não mais voltar.
Repassava a história mentalmente. Não havia erros, era certamente uma das melhores. Genuíno exemplar das belas letras. Olhava tudo em ordem. Pensou nela voltando, quebrando o gelo do seu coração, virando a mesa, ameaçando se jogar pela janela. Depois se acalmaria, pediria desculpas e de vassoura em punho as coisas se ajeitariam novamente.
Ela não voltou.
Nem sequer para lhe dar a chance de tentar de novo.
Talvez ele não tivesse mesmo errado. Talvez fosse realmente a melhor de todas, uma obra-prima.
Mas na milésima-segunda noite ela se calou e sentou em um canto escuro. Cansou de ser coadjuvante em tanta história branca e preta e foi se inventar.
Sentado sozinho, ele procurava entender aonde errara. Minuciosamente, como nos últimos quase três meses, havia planejado tudo. Criara nomes, toda uma cronologia, descrevera o cenário fotograficamente. Tudo nos conformes. Mas, então, porque ela havia ido? Já havia contado histórias sem pé nem cabeça. Ela reclamava, fazia cena, e entre as diferenças e as inquietudes, as coisas se arrumavam.
Certa vez, quase fora traído pelo excesso de álcool. Misturou nomes, confundiu lugares e pronto: confusão. Mas ele era como um gato, se esquivava. E, ainda que caísse, sempre terminava de pé.Quanto mais acuado, mais agressivo ficava. Era mestre em sair de sinucas.
Em momentos onde qualquer um entregaria o jogo, ele apostava tudo e tirava uma carta da manga:
- "Termino amando-a".
Dizia num blefe invejável que era facilmente acompanhado de lágrimas nos olhos.
Vencia sempre.
Mas na milésima-segunda noite ela cansou. Não disse nada. Pegou sua bolsa, uma blusa de lã e saiu para não mais voltar.
Repassava a história mentalmente. Não havia erros, era certamente uma das melhores. Genuíno exemplar das belas letras. Olhava tudo em ordem. Pensou nela voltando, quebrando o gelo do seu coração, virando a mesa, ameaçando se jogar pela janela. Depois se acalmaria, pediria desculpas e de vassoura em punho as coisas se ajeitariam novamente.
Ela não voltou.
Nem sequer para lhe dar a chance de tentar de novo.
Talvez ele não tivesse mesmo errado. Talvez fosse realmente a melhor de todas, uma obra-prima.
Mas na milésima-segunda noite ela se calou e sentou em um canto escuro. Cansou de ser coadjuvante em tanta história branca e preta e foi se inventar.
05/08/2010
rotina
08:00 ela está online 08:45 ela não está online 09:15 ela está online 10:10 ela não está online 11:00 ela está online 11:21 ela nã está online 11:05 ela está online 12:03 ela não está online 13:40 ela está online 14:15 ela está online15:30 ela não está online16:00 ela está online17:00 ela não está online.
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