10/08/2010

Ensaio sobre a Segunda.

Na milésima-segunda noite ela foi embora. Pegou sua bolsa, uma blusa de lã e saiu para não mais voltar.
Sentado sozinho, ele procurava entender aonde errara. Minuciosamente, como nos últimos quase três meses, havia planejado tudo. Criara nomes, toda uma cronologia, descrevera o cenário fotograficamente. Tudo nos conformes. Mas, então, porque ela havia ido? Já havia contado histórias sem pé nem cabeça. Ela reclamava, fazia cena, e entre as diferenças e as inquietudes, as coisas se arrumavam.
Certa vez, quase fora traído pelo excesso de álcool. Misturou nomes, confundiu lugares e pronto: confusão. Mas ele era como um gato, se esquivava. E, ainda que caísse, sempre terminava de pé.Quanto mais acuado, mais agressivo ficava. Era mestre em sair de sinucas.

Em momentos onde qualquer um entregaria o jogo, ele apostava tudo e tirava uma carta da manga:

- "Termino amando-a".

Dizia num blefe invejável que era facilmente acompanhado de lágrimas nos olhos.

Vencia sempre.

Mas na milésima-segunda noite ela cansou. Não disse nada. Pegou sua bolsa, uma blusa de lã e saiu para não mais voltar.

Repassava a história mentalmente. Não havia erros, era certamente uma das melhores. Genuíno exemplar das belas letras. Olhava tudo em ordem. Pensou nela voltando, quebrando o gelo do seu coração, virando a mesa, ameaçando se jogar pela janela. Depois se acalmaria, pediria desculpas e de vassoura em punho as coisas se ajeitariam novamente.

Ela não voltou.

Nem sequer para lhe dar a chance de tentar de novo.

Talvez ele não tivesse mesmo errado. Talvez fosse realmente a melhor de todas, uma obra-prima.

Mas na milésima-segunda noite ela se calou e sentou em um canto escuro. Cansou de ser coadjuvante em tanta história branca e preta e foi se inventar.