16/11/2010

Coreografias de Calçada.

Levo minha menina na calçada, pelo lado de dentro, o da parede, que é o lugar da moça no passeio público, que é o lugar que diz o status do enlace para o mais lesado dos transeuntes. Do lado de fora, a bonequinha na beira do asfalto, é amizade; do outro, como na coreografia dos meus passos: romance, namoro, amor de muito.

Levo ao cine, ao concerto de rock, ao ônibus de linha, à soveteria, às carroças com lanche americano ou aos três acordes arroz, feijão e bife - por favor, uma farofa de ovo e uma cerveja preta, please...

Não esquecer de levar também, viu, para comprar vestidos e roupas de veraneio, que prazer nada viado é aquele barulhinho da cortina dos provadores vagabundos. Levo porque levar é a grande função do bicho macho contemporâneo nesses tempos de frouxidões e covardias coloridas no atacado e no varejo.

Levo de avião ou de busão, mas sempre mantendo a classe, levo, porque o resgate do cavalheiro roots está no levar a dama na riqueza ou no pé-sujo, na cachaça ou na campanhota, no free jazz ou no bolero, levar a moça, inclusive, para conhecer as nossas contradições, talvez a mó fortuna crítica dum homem.

Levar e não esquecer dos degraus e altos e baixos da cidade, donde damos uma mão como amparo e prova inconteste do amor que sobra em todos os nossos membros... inferiores, superiores, robóticos, polvos de todos os mares trabalhando para o bem-estar, conforto e requinte da minha pequena.

19/08/2010

A Mulher de Trinta Anos

"Entregue a si mesma, a marquesa pôde, pois, permanecer perfeitamente silenciosa em meio ao silêncio que estabelecera em volta de si, e não teve ocasião para sair do quarto forrado de tapeçarias onde falecera sua avó, e onde se recolhera para morrer suavemente, sem testemunhas, sem importunações, sem sofrer as falsas demonstrações dos egoísmos mascarados de afeição que, nas cidades, causam aos moribundos uma dupla agonia. Essa mulher tinha vinte e seis anos. Nessa idade, uma alma ainda cheia de ilusões poéticas encontra prazer em saborear a morte, quando ela se afigura benfazeja. Mas a morte é uma sedutora falaz das pessoas jovens; aproxima-se e recua, mostra-se e esconde-se; a demora desilude-as dela, a incerteza que lhes causa o amanhã termina por lançá-las de novo no mundo, onde tornarão a encontrar a dor que, mais impiedosa que a morte, há de feri-las sem fazer esperar. Ora, essa mulher que se recusava a viver ia sentir a amargura dessa demora no fundo de sua solidão, e nesta fazer, numa agonia moral que a morte não terminaria, uma terrível aprendizagem de egoísmo que devia corromper-lhe o coração e amoldá-lo à sociedade.


"BALZAC, Honoré de, 1799-1850. A Mulher de Trinta Anos (La Femme de Trente Ans), França, 1834.




"O conhecimento de diferentes literaturas é a melhor maneira de libertar um indivíduo da tirania de qualquer uma delas." - José Martí

18/08/2010

Palavras, Silêncio.

Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, outro monstro entre os nossos líricos.

Palavras, palavras,palavras...
Silêncio, Silêncio, silêncio...

Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito.

Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.

13/08/2010

Enigma de um Segundo.

É um segundo da mais absoluta beleza. Lá vinha a pequena. Minhas retinas fatigadas fecham em close. Que maravilha. Aquele sorriso, como digo, indecifrável. Porque não se trata de um sorriso besta de alguma felicidadezinha passageira, de um ganho financeiro, da sorte no amor ou no jogo.
É mais enigmático. Muito mais do que o sorriso da Monalisa, que reza a lenda, era o sorriso de uma grávida. Não é o sorriso dos paraísos artificiais dos remédios tarjas pretas ou de alguma pastilha psicodélica. Nada.
Não é apenas o sorriso de quem recebeu uma notícia alvissareira, passou no concurso ou viu o regime fazer o efeito pretendido, uns quilos a menos, nova silhueta, que beleza! Nem chega perto.
Também não é o sorriso de quem ouviu uma cantada de amor com requintes de vida eterna.
O sorriso da pequena é um mistério.
Não é o riso de quem ouviu uma piada, um “gostosa”, “tesouro” etc etc. É bem mais profundo.
De que ri a menina mulher?
Será que ela ri de alguma coisa que despencou-lhe, naquele exato instante,do trapézio da memória? Alguma coisa muito engraçada dos tempos em que ela era uma menina apenas, uma pirraia, quem sabe uma queda de uma árvore ao subir pela primeira vez no pé de jambo da frente da casa suburbana?
Não é o sorriso de quem recebeu carta do estrangeiro, carta do amor que um dia escafedeu-se, saiu para comprar o king size do desamor e do desprezo.
Às vezes parece um pouco com um certo sorriso de maldade. Uma pontinha de vingança, quem sabe. Mas que nada. Só parece. Nada disso.À medida, mesmo naquele rápido segundo, que os lábios voltam ao normal, desfazendo o sorriso, vê-se que não tem nada de maldoso naquele retrato. Muito menos é tingido pelo gloss sabor uva da ironia ou o batom vermelho das vinganças. Não, não é nada irônico, nada ressentido.
Quanto mistério num sorriso de tão pouco tempo. Daria uns cinco anos de vida em troca do esclarecimento desse enigma de um segundo.Chego até a refletir, cofiando a barba rala e dando pequenos nós na costeleta: será que é consciente, será que elas sabem que o misterioso sorriso toma conta do rosto naquela hora?
Não, também não é só sexo. Por mais que o gozo, a pequena morte, como dizem os franceses, faça bem à pele e seja motivo do carnaval particular no peito,não é esse ainda o motivo isolado daquele sorriso, um sorriso mais invocado do que o sorriso do gato de Alice.
Eu gastaria esse espaço inteiro em especulações ainda sem rumo. Coisa de agoniar o juízo. Melhor mesmo apreciar, mesmo que agora de longe, esse lindo mistério da minha pequenã.

12/08/2010

RÉQUIEM PARA UM AMOR DE MUITO OU SAMBA DO EPITÁFIO.

Nem fomos ao mar para ver o nosso amor morrer na praia. Nosso amor morreu engarrafado, na correria do povo para deixar a Faculdade, babilônicos corações de fumaça a 10 km por hora. Nosso amor largou o automóvel e saiu caminhando, melancólico, entre motoboys e miragens, crepúsculo cubatanesco a escorrer do nariz.

Stop, parou o nosso amor ou é apenas um sinal fechado?

Minutos antes, nosso amor foi visto saindo do Bar e saltando no Banco, a linha tênue do último metrô de todos os amores expressos. Aí nosso amor, puto da vida, bebeu cachaça, cheirou cola, acendeu o cachimbo na Cracolândia, perdeu os óculos, as lentes de contato, pegou um papelote de quinta na boca, gastou a pele, fez besteiras e vomitou bem muito o foie-gras dos nossos próprios fígados. Nosso amor não conseguiu dormir direito nesse dia, zumbizou geral o malaco, e não foi apenas o barulho da construção mais demorada do que a catedral de Colônia, a Transamazônica ou o castelo de Kafka.

Nosso amor só pode estar tirando onda da nossa cara, é o tipo do amor que sabe rir da nossa desgraça, um amor de rapariga da última luz vermelha do fim do mundo, um amor da porra, que não respeita as leis do cosmo, nosso amor é uma ficção barata, café puro, pão na chapa, nosso amor nem esfriou ainda o cadáver, acabou no auge, como a carreira de Pelé, como os Beatles, nosso amor era sábio.

E como os amores reencarnam, muito cuidado, senhoras e senhores, nosso amor pode estar rondando ai a sua área. Prendam o infeliz criminoso, onde está a polícia que não vê uma coisa dessas? Nosso amor, para ser mais exato, acabou hoje, em plena quinta-feira: sentimento que costuma alimentar os inícios dos fins de semama, jamais os finais. Vai entender esse troço, nossos dialéticos corazones batiam o bumbo das contradições.

O fato, amiga, é que nosso amor era mais bacana do que nós dois juntos!!

Oração à Nossa Senhora dos que Amam Sozinhos.

Nossa Sra. dos que Amam Sozinho, perdoa-me pela insistência, nem mais é por tanto quere-la, é por deixar claro, nega que sopra das intimidades dessa oração, que só ela me faz passar da conta, perversa, cair no abismo mais lindo do gozo sem volta, como naquele encosto de beira de estrada, como na rodovia estrangeira de Sam Shepard, crônicas de motel, simbora!
Nossa Sra. dos que só pensam nela, cotovelos lanhados de tanta espera, tantos sustos nas ruas, nos bares, “é ela!!!”, Nossa Sra. Dos Cotovelos da Surpresa e das janelas, tão gastos, cinzas, peles, dobras, e tanta fome de viver aqui dentro, megalomaníaco, épico, terá sido a força do desprezo???
Não creio, sr. Albero Moravia.
É mesmo a paudurescência, nostalgia precoce das grandes histórias, o tempo inteiro, pensando, pensando, pensando, mas no fundo gostas!
Os joelhos lanhados pela romaria, devoção e insistência.
Nossa Sra. da Vida Alongada que consegue, nos seus exercícios de Kama Sutra, me levar à coisa mais sagrada.
Nossa Senhora!!!
Amor demorado, anjo exterminador da alcova sem pílulas milagrosas.
Amor por tê-la, rara.
Beijá-la delicadamente, como um cristão que dissolve na boca uma hóstia.
Amar por horas, riachinhos d´águas que não se sabem donde, cada cantinho dum mapa que se inventou só pra se perder depois, sentimento é a verdadeira bússola dum homem, perdido docemente lá embaixo, lá embaixo, daquelas tuas vestes modernas que nunca te escondem.
Lua cheia, vida crescente.
Escuto Lê Déserteus, Boris Vian, ouviste?.
Nossa Senhora dos que sentem muito e amam sozinho, rogai por nós que recorremos a vós!

- Xico Sá

11/08/2010

"Bosta de carência básica infantil, que nos torna para sempre patéticos, jamais capazes de vencer essa necessidade, sozinhos, de alcançar o amor. O amor, o amor, o amor. Vá para a puta que o pariu o amor. Todo esse imperativo de amar é puro masoquismo. De ser amado, mero sadismo."

10/08/2010

Ensaio sobre a Segunda.

Na milésima-segunda noite ela foi embora. Pegou sua bolsa, uma blusa de lã e saiu para não mais voltar.
Sentado sozinho, ele procurava entender aonde errara. Minuciosamente, como nos últimos quase três meses, havia planejado tudo. Criara nomes, toda uma cronologia, descrevera o cenário fotograficamente. Tudo nos conformes. Mas, então, porque ela havia ido? Já havia contado histórias sem pé nem cabeça. Ela reclamava, fazia cena, e entre as diferenças e as inquietudes, as coisas se arrumavam.
Certa vez, quase fora traído pelo excesso de álcool. Misturou nomes, confundiu lugares e pronto: confusão. Mas ele era como um gato, se esquivava. E, ainda que caísse, sempre terminava de pé.Quanto mais acuado, mais agressivo ficava. Era mestre em sair de sinucas.

Em momentos onde qualquer um entregaria o jogo, ele apostava tudo e tirava uma carta da manga:

- "Termino amando-a".

Dizia num blefe invejável que era facilmente acompanhado de lágrimas nos olhos.

Vencia sempre.

Mas na milésima-segunda noite ela cansou. Não disse nada. Pegou sua bolsa, uma blusa de lã e saiu para não mais voltar.

Repassava a história mentalmente. Não havia erros, era certamente uma das melhores. Genuíno exemplar das belas letras. Olhava tudo em ordem. Pensou nela voltando, quebrando o gelo do seu coração, virando a mesa, ameaçando se jogar pela janela. Depois se acalmaria, pediria desculpas e de vassoura em punho as coisas se ajeitariam novamente.

Ela não voltou.

Nem sequer para lhe dar a chance de tentar de novo.

Talvez ele não tivesse mesmo errado. Talvez fosse realmente a melhor de todas, uma obra-prima.

Mas na milésima-segunda noite ela se calou e sentou em um canto escuro. Cansou de ser coadjuvante em tanta história branca e preta e foi se inventar.

05/08/2010

rotina

08:00 ela está online 08:45 ela não está online 09:15 ela está online 10:10 ela não está online 11:00 ela está online 11:21 ela nã está online 11:05 ela está online 12:03 ela não está online 13:40 ela está online 14:15 ela está online15:30 ela não está online16:00 ela está online17:00 ela não está online.

27/07/2010

ainda aquela má fase.

2 horas de papo, entre mensagens e ligação de celular. 2 horas a menos de sono. Ela dizendo que sou engraçado e a faço rir. Eu dizendo que ela é linda. Ela dizendo que não quer que eu mande mais mensagens nem ligue, pois precisa ficar longe de mim, ao menos por enquanto. Eu dizendo que tudo bem. Mas “devemos temer o que pedimos, pois podemos acabar conseguindo”.

22/07/2010

2.3

Melhor se passar batido. Sem muitos parabéns, sem presentes, sem a presenças de pessoas importantes para mim, sem festa, sem auê, sem nada. Eu quero assim, só mais um ano a se completar. E seguimos em frente.

20/07/2010

bela perdida

ela caiu no meu colo
mas nunca pegou
na minha mão

tolice aventar
que houve intenção?

("ela tem boa mira",
disse outra
com inveja nos olhos

mas mesmo assim.)

...

18/07/2010

Arriba.

Então ela, mi pequenã, com mãos fuertes, abraçou-me e me deu um beijo ao vento, daqueles de road-movie e com seu lindo cachecol negro limpou minhas lágrimas para enfim seguimos. Seguimos, pois a vida tem que continuar...

Arriba comancherossssss!

O Gari e a Bailarina (Micro-Romance em Três Atos)

ATO I
A Bailarina
- Sobre como a noite pode ser longa e dolorosa.

Postou-se frente ao espelho, abriu a bolsa e retocou sua maquiagem tão rapidamente que nem mesmo suas amigas perceberam quando ela abriu as portas do banheiro e atirou-se para a pista de dança. Dançava freneticamente e tamanha era sua felicidade que sorria para todos os rapazes a sua volta ostentando sempre em sua mão uma dose de sabe-se-la-o-que. Seus olhos grandes e ávidos não escondiam seu coração deverás ansioso e que há tempos procurava companhia para suas tardes tão vazias. Ela queria mais do que a rotina dos seus dias lhe proporcionava, queria uma nova aventura, um novo amor.
Quando avistou um jovem sorridente próximo à fila do bar pensou ser aquele o homem que salvaria os seus dias. Assim sendo, encarou-o fixamente, abaixou a cabeça, mexeu o gelo com os dedos, deixou o cabelo deitar-se sobre os ombros, espiou novamente, sorriu e em seguida cai em prantos. O jovem provavelmente notará todas as suas insinuações, porem apenas limitou-se a pagar sua conta e seguir o seu destino. Foi e deixou-a assim, perdida em seu ritual autopunitivo. Cansada e sentindo o chão se abrir sob seus pés, ela decretou ali o fim da sua noite, tirou os sapatos, pediu outra dose de sabe-se-la-o-que e ganhou a rua sem destino...

ATO II
O Gari
- Sobre como a vida nos prega peças a cada esquina.

Era um sobrado velho e chamava a atenção de quem passasse à sua frente devido a sua cor nada convencional para uma metrópole, um verde-limão reluzente e que parecia brilhar mesmo quando a noite vinha. Ali, o silêncio da noite foi quebrado apenas quando o rádio relógio próximo à cabeceira da cama despertou exatamente as 04 AM.
Ele rolou de lado a lado de sua cama por várias vezes, custava a acreditar que enfim a hora de levantar-se chegará. Saiu da cama e espiou pela janela do quarto, percebeu que a festa que acontecia perto dali ainda estava abarrotada e não demonstrava nenhum sinal de que seria breve o seu fim, pensou consigo mesmo antes acender as luzes: “irresponsáveis, divirtam-se, pois eu vou para o trabalho”.
Seguiu o mesmo ritual de todos os dias nos últimos cinco anos, cama, banheiro, cozinha, jornal e o adeus para seu único amigo, o gato que nessa altura já roçava irritantemente seus pés a procura de carinho. Trancou a porta e seguiu para sua sina, não que odiasse o trabalho, estava apenas cansado. Ele queria mais do que a rotina dos seus dias lhe proporcionava, queria uma nova aventura, um novo amor.

ATO III
O Destino
- Sobre a poesia, o amor e dois corações apaixonados.

Girou, pulou da rua para a calçada, equilibrou-se na sarjeta, atirou as vassouras para o alto, fechou os olhos, sentiu o vento fresco da noite, girou, sorriu para si mesmo e parou atordoado quando cruzou seu caminho a mulher mais linda que já havia conhecido em toda a sua vida. Não que ele fosse assim tão velho e nem que tenha conhecido milhões de mulheres, mas essa era mesmo a mais bela entre todas.
Quem o visse ali, imóvel e fitando a nobre dama cairia em infindas gargalhadas devido a sua face abobalhada perante aquela situação. Mas ela não, ao avistá-lo, apenas sorriu com o coração e deixou uma breve lágrima rolar de seus olhos, ela enfim perceberá que sua alma se aquietará e uma outra lágrima então rolou.
Ele caminhou em sua direção e ela sentiu aquele frio na barriga que cessou apenas quando ele, tomando-a pelos braços, lhe beijou como em um road-movie qualquer. Foi assim que pela primeira vez em sua vida ela pode tocar o céu e viajar por entre os sonhos, foi nesta noite também que ela descobriu que a lua é coberta de cristais caramelados que se transformam em palavras nas mãos dos poetas. Juntos pelo resto da noite os dois dançaram a valsa do destino sob reluzentes estrelas e era tanto o amor ali presente que até mesmo o sol resolveu sair de sua morada mais cedo e assim assistir tão bela cena.

Daquele dia em diante toda a vez que o radio relógio desperta na madrugada, eles se beijam e entrelaçam os pés sob o cobertor. Ele, feliz como um rei. Ela, sem sentir aquele vazio no peito, agora ela sente apenas...

...uma cosquinha gostosa na sola dos pés.

FIM.

17/07/2010

van das 6

não posso ficar / nem mais um minuto com você
sinto muito, amor / mas não pode ser

fiz hora pra esperar você sair
dei voltas à toa
tomei suco e café
escovei os dentes
pensando em te beijar

esperei o mais que pude
o mais que se pode
esperar

mas você não saiu
você não veio
você não estava lá

ensaio sobre os dias

saudade até dos carrapatos
e pernilongos:
misturavam teu sangue ao meu.

03/06/2010

e agora, temos um problema...

O problema, é que encontrei nos seus olhos, o meu lar. O problema é que eu, sem-teto em busca de colchão macio e cobertor pra me aquecer o sono, encontrei o meu canto. Meu canto é seu olhar. Meu lar...
Meu quarto com luz solar desmaiada por cortinas e com cheiro de uma flor qualquer que eu sei que gosto, mais nem imagino o nome, é você. Minha mesa posta no fim do dia com café, com leite, pão quentinho e manteiga nem congelada e nem muito mole de pingar, é você. Meu jantar na cama e meu doce de leite lambido na colher e aquela providencial coca-cola na madrugada, é você.
Você que tem cheiro de manha de chuva depois da noite inteira enchendo a cara de alegria ao som de música em forma de suor. Você que tem cheiro de travesseiros com penas de gansos albinos do sul da Finlândia. Você que tem cheiro de toalha felpuda. Você que tem cheiro de abraço de polvo. Você que tem cheiro de sorriso de bom dia e de beijo com gosto de pasta de dente.

É que você, a distancia, é o conforto da chegada. Você, de perto, é alegria da chave girando e abrindo a porta. Você, do alto, é telhado laranja e chaminé de desenho animado. Você, de baixo, é o porto seguro contra os trovões do lado de fora. O problema é que eu encontrei, nos seus olhos, a casa que seu sonhei. O problema é que eu encontrei, nos seus olhos, a janela que sempre procurei. O problema é que eu encontrei, nos seus olhos, a cor exata das paredes da sala e o tapete macio e o sofá branco em semicírculo que sempre acreditei que, um dia, ia ter só pra mim.
Você tem gosto de casa própria com registro no cartório. Você tem gosto de quadros coloridos pendurados no banheiro. Você tem gosto de sorriso de criança ao longe em tarde calorenta de domingo. Você tem gosto de livros na estante, samambaias na varanda, carro simples na garagem e passagens marcadas para férias em Paris. Mais o problema, darling, é que encontrei em seus olhos, o meu lar...

E, agora acho que temos um problema

onde eu vou morar?